quarta-feira, 23 de abril de 2008

A Ana que virou Nana

Era uma vez um pai e uma filha. E o tal pai resolveu que, talvez por peso na consciência por vê-la tão pouco, ou por vontade de agradar, decidiu dar á filha um presente, um animalzinho, já que tanto a filha como o filho reclamavam no tal “dia da visita” que a mãe e a avó, dona-da-casa não queria nenhum animal lá.
Talvez para o pai, ele seria para a menina uma espécia de herói, confrontando a ex-mulher e a ex-sogra, dando-lhe um bichinho. No dia de visita, levou a filha para passear e perguntou-lhe se ela queria algum bichinho. Durante a tal conversa foi decidido: ele lhe compraria um gato.
Mas a menina não se interessou pela oportunidade de compra, e como havia ouvido comentarem na vizinhança, pediu ao pai que fossem ao Centro de Controle de Zoonoses. Perguntou ao segurança da guarita onde ficavam os animais para doação. Gatos.
Entraram pelo corredor onde gaiolas e mais gaiolas haviam com todo tipo de gato. Tinha adultos, filhotes, vellhos (poucos), enfim. A menina, talvez por medo de não poder ficar com o gatinho (ela mesma sabia da aventura que era bater de frente com a mãe para ter um animalzinho, ainda mais um gato, que a mãe sempre dizia ter “nojo”), também estava um tanto empolgada, mas um pouco desanimada. Sabia que fim teria a tal aventura. Passou olhando sem dar a mínima atenção. Até que algo puxou sua blusa, na altura do ombro. Pensado ela ter se enganchado em algo, olhou para trás. Viu uma patinha preta e peluda, uma pequena criaturinha felina passou a patinha pelas grades da gaiolinha e puxou a blusa da garota. Logo que foi amor á primeira vista, lógico que a menina olhou e pensou “é essa”, e ao que tudo indica, a gatinha tinha pensado o mesmo.
Obviamente, a menina não pode ficar com a gatinha, que após longa discussão, foi feito um acordo que a gata ficaria com o pai e a madrasta. Ambos adoravam animais naquela época, e parecia que a gata seria bem tratada. Por alguma razão, o nome da gata era Ana. Ninguém escolheu, ninguém a batizou. Ninguém sabe como nem por que, mas o nome dela era Ana, que virou Nana.
A filha cresceu vendo praticamente nunca a Nana. E a Nana parecia ter uma vida boa. Ração da melhor qualidade, vacinas em dia (ok, essa parte não deve ter sido tão gostosa quanto ração), tardes de banho de Sol na barriga. Muito colo e carinho.
Quando a menina ficou mais velhinha (se dá pra ficar velhinha com 14 anos), ela foi morar com o pai. E com a Nana. Por um ano inteiro, fora feliz com a Nana, mas infeliz com o pai e a mdrasta. E foi embora, jurando á gatinha que voltaria. Mas a gata estava feliz, e parecia não se importar, contanto que as coçadinhas debaixo do queixo e colinhos quentinhos continuassem. E a menina pensava o mesmo.
Algum tempo depois, a madrasta engravidou, e verdade seja dita, o amor que ela tinha por animais se desviou numa série de maus-tratos, rejeição e abandono total da Nana. Nada mais de coçadinhas, nem colinho, nem carinho. Ração despejada no pote, e o apelido nada carinhoso de “demônio”. Sem mencionar a criança mimada que podia puxar os pêlos e bigodes da gata. E ai dela se não gostasse. A chinelada era certa, e forte.
A menina, assistia a tudo quieta, pois de qualquer forma, a madrasta e o pai sustentavam a gata. E a menina assistiu por aproximadamente dois anos os maus tratos, tentado compensar quando ia visitar “a irmãzinha”, pegava a Nana, brincava, fazia carinho, enfim, tudo.
Mais alguns meses se passaram e a garota foi morar sozinha. E logo de cara, perguntou a madrasta se ela não queria devolver o “demônio”...e claro, ela voltou ao colo da primeira dona.
E foram felizes durante muito, muito tempo. No primeiro casamento da dona, a Nana não gostava do homem que estava morando com elas. E estava certa, pois ele era um tanto agressivo. Não teve nenhuma vez que o homem gritasse com a dona, que a Nana não ficava em volta, de prontidão, e por vezes, atacava. Nunca aconteceu também do homem conseguir ter alguma proximidade com a Nana, que bufava, rosnava ou se afastava dele em toda oportunidade.
A dona ia trabalhar todo dia de manhã, e quando saía de casa, fazia um gradinho na gatinha antes. A Nana, carinhosa e esperta que só, ficava observado a dona pela fresta da porta até que ela fechasse a porta completamente. Aí, com a porta fechada, ela de um lado e a dona de outro, começava a miar. Um miado fraquinho, manhoso, que dizia algo como “não vai, não!”.
Quantas vezes a dona acabava chegando atrasada no trabalho por que o plano da Nana funcionava, e ela acabava deitada no chão coçando a barriga da gata, pegando-a no colo, ninguém sabe. Só se sabe que foram muitas, mas muitas vezes que isso aconteceu.
E a vida seguiu seu curso normalmente, tanto para a dona, que estava no segundo casamento, e depois, casamento nenhum de novo, quanto para a Nana, que vivia de volta como sempre quis. Muito carinho, coçadinhas debaixo do queixo, colinho de madrugada (ou a qualquer hora do dia que ela, a dona estivesse em casa), ração á vontade, ração em lata de vez em quando, por mimo, caixinha de areia limpa e uma almofada fofinha, para quando não houvesse ninguém em casa. Tudo isso e mais um pouco: ela se tornara a confidente da dona, era a gata preferida (sim, tiveram outros junto da Nana), apesar de uma crisezinha de ciúme aqui e ali, Nana sabia que ela seria sempre a preferida. Era ela quem atacava a dona e a dona entendia. Era ela que era abraçada e agarrada quando a dona estava ás lágrimas, provando que gato sabe dar colo tanto quanto receber.
A dona gostava de dizer que era a humana da Nana, e nunca a Nana havia sido a gata dela. E a amizade delas durou e foi sempre muito, mas muito mais fiel e firme do que muitos humanos que passavam pela vida da dona, e a dona sabia disso. Entendiam-se como poucos humanos conseguem se entender.
A mãe da dona, quando foi visitar a filha, passou a gostar de gatos. Melhor, ela gostava de “Nanas”. Não era pra qualquer gato. Toda vez que a dona trazia um gato novo, dizia que queria ter gatosnovos enquanto a Nana estivesse viva, para que ela ensinasse o jeitinho dela de ser.
Passou o tempo, e a Nana foi envelhecendo. Os bigodes ficaram ralinhos, as sonecas mais longas. Nunca mais a Nana brincou com araminhos de pacote de pão, nunca mais roubou elásticos de cabelo. Aos poucos, parou de trazer os elásticos na boca, colocou-os no colo da Dona e miou pedindo para que a dona jogasse o elástico para ela brincar.
De mansinho, a Nana foi ficando mais sonolenta, preferia mil vezes um colinho e carinho do que brincar. Não corria mais pela casa chamando a dona para um pega-pega. Foi envelhecendo. E ficando velha, foi ficando comicamente azeda. Miava quando tocavam nela, miava quando se pegava ela no colo, miava quando era chamada, ficava brava quando ouvia assobios. Ficava muito brava quando a dona gritava, por vezes atacava a dona.
A dona conheceum um homem, e dessa vez, Nana não foi nem receptiva demais, nem arisca (se é que algum dia ela havia sido). Recebeu-o bem, gostava dele e lhe dava carinho. Ele era o dono. Dormia no colo dele sempre que havia chance, e por vezes, Nana parecia confusa quanto a que colo iria querer. A dona ou o dono?
Então eles se mudaram para uma apartamento com quintal, e lá Nana foi feliz, pois tinha banho-de-Sol á vontade. E por vezes, esacapava pela porta quando a dona ou o dono chegavam e fugia para comer o matinho que crescia no vaso do corredor. Mas o lugar não era bom para os donos, que saíam para trabalhar todo dia. Havia muito assalto na regiao. Por não terem para onde mudar, foram para a casa do dono, onde a Nana, já velhinha, fez sua última estripolia. Pulou da janela do quarto, e foi pelos telhados até a casa do lado, e da casa do lado, para a escolinha infantil que tinha ali. Lá ela caiu, e ficou presa dentro da escolinha (já era de madrugada). A dona desesperada, depois de horas chamando e pensando em como tirar a Nana de lá, percebeu uma fresta entre a porta da escolinha e o chão, e pediu ao dono que forçasse a porta. E assim a Nana foi salva de sua última arte, arrancada e espremida debaixo da porta.
Alguns meses depois mudaram-se de novo, para um apartamento. Pequeno, com pouco Sol, mas tanto a Nana quanto os outros gatos não reclamavam mais de tantas mudanças. Bastava-lhe a companhia. Uma vizinha na nova residência dava-lhe um matinho, que tanto a Nana gostava que os donos questionavam se ela seria uma gata vegetariana.
Até que, aos pouquinhos, bem silenciosamente, o apetite da Nana foi ficando cada vez menor. Os donos davam-lhe ração em lata, a preferida dela, mas ela comia cada vez menos. Parecia que algo havia errado com a gatinha. Levaram em um veterinário, mas só a consulta já fora um golpe duro no bolso dos donos, e ficou difícil fazer os exames que precisavam fazer. Mas ela sempre fora uma gata forte, e eles tinham certeza que tudo ficaria bem.
Não ficou. O apetite da gatinha se reduziu a nada. Nem ração em lata, nem ração seca. Ficava o dia todo deitadinha, e por vezes soltava um miado fraquinho. Não era nem um “miau”, era mais um “hmmm”.
Um dia, quando a dona chegou em casa, foi ver no sofá como estava a Nana. Ela se sforçava, mas não conseguia respirar. A dona em desespero não sabia o que fazer, pois era tarde, não havia pet shops abertos. Mas lembrava-se de ouvir dizer que uma veterinári morava no prédio. Pegou a Nana no colo e foi correndo até o apartamento da vizinha veterinária. Examinou a Nana e, depois de ouvir os poucos relatos que a dona conseguia fazer, concluiu: era pneumonia. Provavelmente por isso ela não comia. Com o nariz entupido, não sentia o cheiro dos alimentos, e não comia. Nana foi tratada com antibióticos, vitaminas e uma ração em lata especial para que ela ganhasse peso. Afinal, ela foi de 4,700 pra 3,500 Kg em poucas semanas.
A semana passou, e parecia que a pneumonia também. Mas Nana ainda não comia. Apesar de várias tentativas dos donos, ela virava a cara pra comida. Por vezes, ela concordava em lamber um pouco da ração em lata. Mas não passava disso.
Voltou á veterinária, que sugeriu levá-la á clínica dela para tomar soro durante o dia. Os donos concordaram. Na Quarta e Quinta-Feira, Nana voltava um pouco animada, mas mal conseguia andar. Na Sexta, a veterinária trouxe a Nana depois da última sessão de soro. E o exame de sangue: os rins da Nana falharam, e isso trouxe-lhe a falta de apetite. Sem comer, o corpo dela alimentava-se da própria gordura, e saturava o fígado, que também já estava debilitado. A falta de comida não era substituída pelo soro, e a gatinha estava com o Sistema Nervoso comprometido. A dona, já em lágrimas, avisou ao pai o que ela estava passando. Ele lhe agradeceu, e ambos concordaram que, apesar de difícil, chegava a hora de dar um fim ao sofrimento da gatinha. Por isso, a dona resolveu aproveitar o feriado, e cuidar dela em casa. Chega de ficar sozinha numa clínica o dia todo, chega de cateter e de ficar sem a companhia de quem sempre a amou. A dona triturava a ração especial para problemas renais num pilão (por não ter liquidificador), misturava com água, e enchia uma seringa com a “sopa”, injetando-a na boca da Nana. O dono ajudava segurando ela, e limpando a boquinha dela.
No final do feriado, Segunda-feira de madrugada, Nana se deslocou do sofá na sala para o armário no quarto. Para ficar perto dos donos. A dona pegou-a do armário, envolveu-a com uma toalhinha e a pôs para dormir entre os donos. A dona não dormiu.
De manhã, antes de ir para o trabalho, a dona foi dar-lhe mais uma esguichada de sopa goela abaixo. Mas a Nana não conseguiu engolir. O dono, assustado, tentou colocá-la em pé. Mas as patinhas não tinham mais forças, e se dobravam molemente. Os dois se olharam, já em lágrimas, e o dono disse: “vou procurar um veterinário”. A dona pegou a Nana no colo, e ela soltou um fraquinho “miaa...”. A dona pegou seu rabo, puxou as patas, mas a gatinha já estava fraca demais. E morreu ali, no colinho da dona.
Nana foi enterrada com todas as honras, no Horto, numa clareirinha com bastante Sol. A dona e o dono agradeceram á ela por toda a companhia que ela trouxe. Voltaram para casa com os olhos inchados, e quando a dona entrou com o dono no apartamento, e viu aquele vazio, viu que a Nana não estava mais lá deitadinha no sofá, caiu num choro dolorido e sem fim. O dia estava ensolarado, estava lindo. Mas era um dia triste.
A dona está agora tentando trabalhar, mas não iria conseguir se concentrar enquanto não contasse essa história. Essa dona, sou eu. Ainda não consegui recolher as lágrimas, ainda dói como se uma parte de mim tivesse sido levada embora. E ainda tenho medo de voltar pra casa e não ouvir aquele miadinho, de ir dormir e não sentir as patinhas geladas e almofadadas da gatinha que, contando e relembrando agora, era a gatinha cuja história se misturou com a minha própria. O dono também está trabalhando hoje, e ele também está em caquinhos.
Essa semana não parece ser a mais fácil de todas. É dolorido demais amar um bichinho como amei, e ver a sua vida, ver seu espiritozinho desaparecer aos pouquinhos. Mas foi feito o certo. Não sacrifiquei ela, e ela se foi sem sofrer, com o apoio, com coçadinhasno queixo, com o colinho que ela sempre amou. E foi respeitada até o último dia da sua vida. Até os últimos segundinhos dela. E como uma conhecida comentousobre a morte de um amigo, comento agora sobre a morte da minha Ana, que virou Nana: “até dá pra viver sem você, mas fica tão sem graça!”
Não disse nenhum adeus, nem tchau, nem nada. Só a enterrei, e disse-lhe um carinhoso “obrigada por tudo, pretinha. Amo você” e um “a gente se vê ainda...”. O meu Pai e a minha madrasta ficaram tristes, e disseram uma verdade, depois de me agradecerm: “Alê, você fez por ela muito mais do que poderíamos ter feito”. E espero que tenha conseguido fazer a vidinha dela valer a pena.



A Nana é a preta, no momento preferido, os banhos-de-Sol na barriga...

4 comentários:

Fefa Liguori disse...

Puxa Alê, me emocionei com essa história!
Sei o quanto é difícil e palavras como: "foi melhor assim" "ela agora não vai mais sofrer" não vão ser de grande valia.
Mas, tenho certeza que você fez o melhor por ela. Saudade sempre vai existir e o tempo fará com que a tristeza diminua e só fique a saudade gostosa, aquela que a gente faz questão de ter!
Força!

beijos!

Paulo Cuba disse...

Oi Alê.. nao irei perguntar como voce esta pois essa resposta eu já tenho...

sinto muito pela sua perda, tive o prazer de conhecer a Nana e conviver com ela por um pequeno periodo. Sem dúvidas ela é uma gata especial para voce, e acima de tudo, uma grande amiga... uma irmã...

Infelizmente essa situações temos que passar mas verdadeiramente nunca estamos de fato, preparados para ligar com a perda de alguém tão querida e amada...

Alê, o que eu puder fazer, voce pode contar comigo, mesmo que seja para conversar... desabafar...

Beijos querida, tudo de bom para voce....

Anônimo disse...

Puxa, fiquei meio confuso! Quando aparecia o pai, não sabia se era o pai da dona, o pai da gata, enfim! Hehehe!

Ah, mas que legal que vc gosta tanto assim da gata, e a tirou do centro de controle de zoonoses.

Animais de estimação são assim mesmo, eles sempre vão antes dos donos e deixam essa saudade.

Alê lobo disse...

Amores, este blog vai ficar na mão por uns tempos...enquanto isso, tem o MEU blog, que é esse aqui ó: http://lalobitalobinha.blogspot.com

Todos são bem vindos lá! bjs!